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Considerações sobre os desafios para a Formação do Nutricionista para o Sistema Único de Saúde no Brasil

Por: Maria Angélica Tavares de Medeiros

Inúmeros são os desafios brasileiros contemporâneos relativos à saúde e à nutrição da população. A importação de padrões alimentares pouco saudáveis, repercutindo sobre o estado nutricional; o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis-DCNT e as mudanças demográficas, que exigem o rearranjo das políticas públicas; a co-existência de obesidade e insegurança alimentar e nutricional afetando crianças e adultos. Tal panorama justifica o papel que a Atenção Nutricional deve assumir no Sistema Único de Saúde-SUS, e a agenda da Alimentação e Nutrição ganha destaque. Isto posto, quero aqui pontuar algumas questões que possam favorecer reflexões e debates, assumindo a integralidade como um dos princípios fundantes do SUS que se quer alcançar.

Com uma história de 27 anos, as demandas de construção do SUS forçam o repensar da formação de profissionais de saúde, em geral, e de nutricionistas, em particular, a partir dos anos 2000. A reestruturação dos projetos político-pedagógicos dos Cursos de Nutrição sobressai como um relevante desafio para a superação de práticas profissionais tradicionalmente compartimentalizadas e voltadas ao aprendizado de técnicas e procedimentos de bases biomédicas. A necessidade de agregar saberes concernentes à dimensão sociocultural da alimentação e à gestão de políticas e programas, assim como a premência de fazer valer o direito de todos a uma alimentação adequada e saudável demandam o aprimoramento das concepções conceituais e metodológicas para a graduação.

Em que pese a ainda embrionária inserção do nutricionista em redes de atenção no SUS, limitando o trabalho em equipe e a atenção integral, é notório o aumento da absorção desses profissionais no matriciamento, via Núcleos de Apoio à Saúde da Família-NASF, assinalando novas perspectivas. A atuação nos NASF, por seu turno, com a aproximação dos territórios e dos domicílios das famílias, requer capacitação para lidar com agravos antes restritos aos níveis de média e/ou alta complexidade.  Assim sendo, afora a ação em rede, cabe suplantar a tradicional segmentação entre as áreas de Nutrição em Saúde Coletiva e Nutrição Clínica e focar, na atenção nutricional, a complexa malha causal que envolve a temática de alimentação e nutrição.

As práticas alimentares e as escolhas daí decorrentes estão submetidas a variáveis que transcendem as predisposições genéticas, compreendendo história de vida, carga cultural e questões socioeconômicas que favorecerão ou não o acesso aos alimentos. Assim, é fundamental que o nutricionista refine o seu repertório analítico, como ponto de partida para ir além da prescrição, do repasse de orientações nutricionais. Compõe ainda esse conjunto de requisitos para a atenção nutricional investir em práticas de educação alimentar e nutricional que valorizem a cultura alimentar, resgatando escolhas saudáveis, saberes e práticas culinárias, em detrimento do consumo de produtos prontos, ultraprocessados. Configurada como um momento da integralidade, para ser efetiva a atenção nutricional implica, portanto, em promover a escuta qualificada do que é trazido pelos sujeitos. É um ato dialógico e acolhedor, desde que se pretenda incidir sobre universo de tamanha complexidade como o das práticas alimentares. A partir disso é possível concretizar a responsabilização, o vínculo, a resolubilidade da atenção, caminhando para a autonomia dos sujeitos.

Tais questões se desdobram em outras tantas, de modo que qualificar a formação de nutricionistas nos anos 2000 é, sem sombra de dúvidas, um grande desafio para a consolidação do SUS. Na trajetória para uma formação mais abrangente, é imperativo ampliar e integrar conhecimentos, considerando aspectos fundamentais do sistema agroalimentar que impactam o ambiente, a alimentação adequada e saudável e a sustentabilidade. Desse modo, ações disciplinares e exclusivas do setor saúde são insuficientes. À luz desses desafios, aflora o da integração intersetorial, tanto no âmbito das políticas públicas governamentais quanto na busca de interlocuções com movimentos sociais, universidade e outras instâncias da sociedade, em defesa da promoção da saúde e da alimentação adequada e saudável, facultando respostas aos problemas de saúde e nutrição que afetam a população brasileira.


Maria Angélica Tavares de Medeiros. Nutricionista sanitarista (UFPB); mestre em Sociologia e doutora em Saúde Coletiva (UNICAMP). É professora adjunta do Instituto Saúde e Sociedade, Curso de Nutrição da Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista. É Coordenadora-Geral do Grupo Temático Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (GT ANSC ABRASCO).  


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