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Entrevistas

Pesquisa de Orçamento Familiar (2008-2009): Consumo alimentar

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A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), aplicada pelo IBGE com a população de todo o Brasil, tem como objetivo fornecer informações sobre a composição dos orçamentos domésticos, a partir da investigação dos hábitos de consumo, da alocação de gastos e da distribuição dos rendimentos, segundo as características dos domicílios e das pessoas. Além disso, a POF busca também investigar a autopercepção da qualidade de vida e as características do perfil nutricional da população brasileira.
 A POF 2008-2009, trouxe importantes informações relativas consumo alimentar da população brasileira com 10 anos ou mais de idade. Visando aprofundar o tema, e ampliar os debates acerca do assunto, o ECO-Redenutri entrevistou a Profa Dra Rosely Sichieri do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
 
1) Qual os resultados de consumo alimentar da POF que merecem maior destaque?
Estamos chamando os dados de consumo da POF de INA- Inquérito Nacional de Alimentação. Os dados recentes do IBGE, do Inquérito Nacional sobre Consumo Alimentar no Brasil realizado em parceria com o Ministério da Saúde, mostram que o cenário nacional em relação ao consumo de alimentos forma um mosaico interessante que combina alimentos tradicionais, característicos da dieta brasileira, o arroz e feijão, com alimentos industrializados de alto teor calórico. Esse padrão de consumo explica o aumento de doenças cardiovasculares e diabetes e a epidemia de excesso de peso que o país enfrenta, com aumento da obesidade principalmente entre os jovens, mas também indica caminhos muito peculiares para a prevenção dessas doenças no Brasil pela mudança de hábitos inadequados de consumo.

2) Em termos regionais, faixas de renda e etárias quais são as principais diferenças ?
Itens alimentares considerados saudáveis como feijão, preparações a base de feijão, milho e preparações a base de milho são mais consumidos nas faixas de menor renda e para alguns marcadores negativos da qualidade da dieta, como consumo de doces, refrigerantes, pizzas e salgados fritos e assados, seu consumo é reduzido na menor categoria de renda.     Contudo, o consumo de frutas e verduras diminui muito nas faixas de menores rendas. Nas áreas rurais, as médias de consumo per capita diário foram muito maiores para arroz, feijão, batata-doce, mandioca, farinha de mandioca, manga, tangerina e peixes. Em contraste, nas áreas urbanas, destacaram-se os produtos processados e prontos para consumo como: pão, biscoitos recheados, sanduíches, salgados, pizzas, refrigerantes, sucos e cerveja, caracterizando uma dieta com alto teor energético.
 
3) Considerando os principais resultados quais seriam as medidas mais urgentes no sentido da alimentação e saúde ?
Eu apontaria quatro medidas imediatas e urgentes:
1. Reduzir o sódio dos alimentos industrializados. A proporção de indivíduos com ingestão de sódio acima do nível seguro de ingestão foi de 89% entre os homens e de 70% entre as mulheres adultas.
2. Reduzir o consumo de açúcar. O Brasil é o segundo maior consumidor per capita de açúcar, e as bebidas adoçadas correspondem a quase metade do consumo de açúcar total.
3. O consumo de cálcio é muito baixo, estimular a adição de um copo de leite ou derivados do leite e vegetais verdes escuros diariamente.
4. Aumentar o consumo de micronutrientes em geral quem melhoraria muito com o consumo duas frutas por dia.  

4) Neste mesmo sentido quais seriam as prioridades de ação e orientação que os profissionais que atuam em atenção primária e nutrição devem considerar?
Este não é meu campo de especialidade, mas acho que atenção primária deve atuar na prevenção do ganho de peso naqueles que já manifestam risco e também intensificar as medidas nas fases do curso da vida que são acompanhados pelo SUS como a gestação, aleitamento, desmame (alimentação complementar).
As medidas gerais de promoção ficam para ações via mídia profissional e de muito boa qualidade para divulgar o coma menos não beba nenhuma bebida adoçada. Essa parte mais difícil que ninguém quer bancar.
Redução do consumo das bebidas adoçadas parece ser um ponto central nas recomendações. As propostas nesse sentido devem incluir os pontos de venda em instituições públicas. O Programa Nacional de Alimentação Escolar não deve permitir a compra de nenhuma bebida pré-preparada (incluindo leite e achocolatados- todos fonte de adição excessiva de açúcar). E estímulo/orientação para que as famílias não tenham estas bebidas nos domicílios para que as crianças e adolescentes não consumam. Refutar a questão da ampla necessidade de líquidos, pois não há nenhuma base concreta para os litros de água que costumam fazer parte das recomendações. A necessidade do alto consumo de líquidos possivelmente está associada, possivelmente, à alta densidade dos alimentos e refeições consumidas. Reduzir o consumo de biscoitos, principalmente os doces é fundamental e eles não deveriam fazer parte de nenhum cardápio de instituições públicas. Como no caso das bebidas adoçadas, as famílias devem ser orientadas a não manter estoques desses produtos em domicílios com crianças e adolescentes.

5) E como comentários finais?
É fundamental enfatizar a importância de estimular o consumo e a produção das refeições no ambiente da família, e a criação de condições para sua ocorrência. Associar e adequar aos programas de transferência de renda à agenda da alimentação saudável é a forma mais efetiva de atingir uma população de alto risco de obesidade. Produzir panelas de cozinhar elétricas, alimentos saudáveis pré-preparados, vegetais já picados, frutas com descontos para portadores do cartão Bolsa Família. Estimular pesquisas operacionais de como fazer a família, principalmente os que estão ingressando no consumo via transferência de renda a como comer de forma saudável. Favorecer consumo de leite e derivados em horários que não conflitem com a absorção de outros minerais.

Rosely Sichieri, possui graduação em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Botucatu (1976), especialização em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1978), mestrado em Ciências (Fisiologia Humana) pela Universidade de São Paulo (1981) e doutorado em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1988). Realizou Pos-doutorado em Epidemiologia em 1990 no NIH- USA e em 2002 na Harvard School. Atualmente é professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Análise Nutricional de População, atuando principalmente nos seguintes temas: obesidade, adolescentes, sobrepeso, nutrição e consumo alimentar.

 
 
 


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