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Acordos-bilaterais – governo-setor privado para redução do açúcar nos produtos industrializados

Por: Rosely Sichieri - professora titular do Instituto de Medicina Social da UERJ

As doenças crônicas não-transmissíveis ultrapassaram as doenças infecciosas como a principal causa de morbidade e mortalidade no mundo. O sobrepeso e a obesidade figuram como importante fator de risco e atualmente, 65% da população mundial vive em países onde essas duas condições matam mais do que o baixo peso.

No Brasil, a evolução do estado nutricional da população é indicativa de importante aumento do excesso de peso, com tendências, especialmente preocupantes, entre as crianças em idade escolar e adolescentes. Nos últimos dados de prevalência nacional, entre as crianças de 5 a 9 anos metade apresentava excesso de peso, e entre os meninos, 15% já apresentava obesidade. (IBGE, 2010).

A principal ação nessa situação epidemiológica, como afirmado na Declaração Política da ONU sobre doenças não transmissíveis, é a prevenção, que deve ser a pedra angular da resposta a estas doenças, e cujas causas residem em setores que vão para além do setor saúde. Como foi muito bem diagnosticado pela Dra. Margaret Chan, Diretora-Geral da OMS, na apresentação de abertura da conferencia global de promoção à saúde (Global Conference on Health Promotion, Helsinki, 10/6/2013), no controle das doenças cronicas não transmissíveis a maior dificuldade hoje deixou de ser o tabaco, e assumiu seu lugar o que chamamos de Big Food, Big Soda, and Big Alcohol. Ou seja, as corporações relacionadas à produção e estimulo ao consumo de alimentos, bebidas açucaradas e álcool. Ainda, segundo a Dra. Margaret as indústrias não querem nenhuma regulação e se protegem com grandes lobbies, promessas de auto-regulação e realização de pesquisas que confundem o grande público (Chan M Opening address at the 8th Global Conference on Health Promotion, Helsinki, Finland, 10 June 2013. http://www.who.int/dg/speeches/2013/health_promotion_20130610/en/index.html.(external link) Ou seja, embora estejamos reunidos para discutir o acordo governo-setor privado para redução do açúcar nos produtos industrializados, devemos ter em vista o limite dessa ação, que obviamente deve ser perseguida pelo governo, mas que grandes mudanças vão depender de um maior envolvimento da população e dos governantes com o assunto, não só dessa discussão específica, mas da alimentação adequada ou saudável como um todo.

Há dados bastante consistentes, inclusive do Brasil, quanto a associação - obesidade e o consumo de açúcar e refrigerantes. Com dados da POF 2002-2003 já mostramos essa associação em paper publicado por Lobato et al., 2009 no PHN. Dados mais recentes de consumo medido na ultima POF constatou que o consumo de sucos e refrigerantes é muito maior nos adolescentes do que nos adultos e idosos, sendo que 83% da população adoçam sucos e café. As bebidas: contribuem com quase 50% do consumo de açúcar, incluindo bebida energética, refrigerantes e refrescos, sport drinks, sucos de frutas, caldo de cana, cajuína, água de coco, café, chá, mate (Pereira, et al., 2012). Nos adolescentes 80% consomem mais açúcar livre do que a recomendação de no máximo 10% do consumo energético total, essa prevalência em adultos é por volta de 60%.

Ou seja, esses produtos industrializados necessariamente devem fazer parte de qualquer política de prevenção e controle da obesidade. Como ainda não apareceu nos protestos de rua questões da big indústria de alimentos e bebidas, qualquer regulação por parte do governo está distante e os acordos com a industria, para tenham algum impacto, devem cortar de forma importante a adição de açúcar nos produtos industrializados, principalmente bebidas em geral e biscoitos e bolachas.

Acoplado poderiam ocorrer ações de caráter educativo, que sinalizasse a importância da redução do consumo excessivo de açúcar no Brasil. Por exemplo, todos os equipamentos de saúde e de educação governamentais ou com financiamento governamental deveriam ser áreas livres de produtos como bebidas açucaradas e biscoitos. Ações como essa, mais do que reduzir a oferta, tem caráter educativo. Se informarmos à população que só água é disponibilizada nas escolas, hospitais, creches, restaurantes universitários- cria-se a necessidade de discutir a qualidade da alimentação.

Rosely Sichieri, possui graduação em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Botucatu (1976), especialização em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1978), mestrado em Ciências (Fisiologia Humana) pela Universidade de São Paulo (1981) e doutorado em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (1988). Realizou Pos-doutorado em Epidemiologia em 1990 no NIH- USA e em 2002 na Harvard School. Atualmente é professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Análise Nutricional de População, atuando principalmente nos seguintes temas: obesidade, adolescentes, sobrepeso, nutrição e consumo alimentar.

 


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