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Textos de Opinião

Por: Jacqueline Abrantes Gadelha - Enfermeira da ESF Panatis, Natal - RN. 

Mais doce impossível: Relato de experiência

Sou enfermeira, atuo na saúde pública há vinte e três anos, destes, dez anos na ESF. Conheci a redenutri por meio de uma colega nutricionista e ao ler alguns dos conteúdos, senti-me instigada a relatar um caso que ocorreu no Estado do RN.

Compartilho, portanto, um relato de experiência com esta rede, por compreender que ele traz à tona as temáticas da medicalização da vida, da compreensão cada vez mais presente do processo de adoecimento como uma patologia instalada no corpo de órgãos, da doença relacionada à disciplinarização e controle, assim como, para pensarmos, juntos, situações que instigam importantes questões no cotidiano dos trabalhadores de saúde: que saúde estamos produzindo? Como atuar diante das singularidades? Como “intervir” em determinadas situações? Como atuar considerando as subjetividades? Segue o caso...

“Dona Rita, uma paciente diabética, sonhava comer outra vez algo que há muito não lhe era permitido:  bolachas com doce de leite.  Há um ano, as filhas, seguindo rigorosamente a dieta prescrita pela nutricionista da cidade vizinha, controlavam tudo o que a pobre senhora botava na boca. Certa manhã, ela levantou-se silenciosamente, pegou o tacho de leite, despejou bastante açúcar, pôs no fogão. Em outra panela, bolachas mergulhadas em uma boa quantidade de manteiga da terra iam sendo aquecidas até que exalassem cheiro de queijo. Tudo pronto, misturou no prato mais fundo da casa. Sentou à mesa com cara de quem estava a cometer o mais doce de todos os pecados. Ali, diante dela, um “prato fundo e toda a fome que há no mundo". As filhas, ao encontrá-la, arrebatam de suas mãos a iguaria...Dona Rita, cabocla sertaneja de oitenta e sete anos, onze filhos paridos em casa, quarenta e tantos netos, dezoito bisnetos, “um marido no céu outro no inferno”,  aboiadora nas longas  tardes sertanejas e amansadora de burro brabo, nessa noite, invocou o seu passado. Não ia mais permitir que lhe controlassem a comida. Puxou da pesada gaveta da mesa da cozinha, a enorme faca de cabo prateado. Ameaçou as filhas: ou devolviam seu prato ou seriam “sangradas que nem perus”.

O precioso prato foi devolvido. Dona Rita senta à mesa sob o olhar assustado das filhas que procuraram ajuda da equipe do PSF.

A imagem que os olhos da equipe puderam ver foi inesquecível: Dona Rita, colher e boca cheias, debruçada sobre as bolachas imersas em doce de leite como se essa fosse a primeira ou última vez a satisfazer um desejo. Ao seu lado, sua velha amiga: a reluzente faca-peixeira de cabo de prata.” 

Imaginando que, possivelmente, casos semelhantes apontando para a não passividade e para a inconformação ao que é prescrito são vivenciados pelos profissionais desta rede, trago uma questão para reflexão: como lidar com essas intercorrências que escapam dos protocolos de atendimento e transgridem as recomendações nutricionais preconizadas pelo Ministério da Saúde?

Aguardo comentários que possam ampliar nosso diálogo.
Palavras/chaves: Nutrição, biopolítica, Estratégia Saúde da Família

Contato: jacquelineabrantes em globo.com���REAL_LT≥br />


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