Brasileiros que precisam - ou acham que precisam - EMAGRECER, e não raro recorrem a medicamentos que ajudam a acelerar a perda de peso, podem passar a ter mais um obstáculo. Após tornar a venda de sibutramina mais rigorosa em março do ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai propor, em audiência pública na próxima semana, o cancelamento do registro no país do inibidor de apetite e de outros três remédios usados para emagrecimento chamados anorexígenos anfetamínicos: anfepramona, femproporex e mazindol. Estudo realizado pelo órgão apontou que os benefícios oferecidos pelos medicamentos são pequenos se comparados aos riscos dos efeitos colaterais que podem causar, como arritmias cardíacas e aumento da pressão arterial e pulmonar.

"No momento, estamos convencidos, do ponto de vista técnico e científico, de que a melhor decisão é retirar do mercado esses produtos por problemas de segurança", explica Maria Eugênia Cury, chefe do Núcleo de Investigação em Vigilância Sanitária da Anvisa. Segundo Maria Eugênia, a audiência servirá para discutir com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) a eficácia desses emagrecedores. "Pretendemos perguntar se há algo de consistente que se contraponha a essa avaliação, se há algo que não levamos em consideração. Mas hoje nossa convicção é essa", diz.

Desde o ano passado, a Agência Europeia de Medicamentos proibiu a venda de sibutramina pelos mesmos motivos agora considerados pela Anvisa. Para os médicos, a decisão é precipitada e prejudica pacientes que realmente precisam do tratamento com os inibidores de apetite. Segundo o presidente da Sbem, Ricardo Meirelles, o uso controlado desses remédios pode, sim, auxiliar no emagrecimento de pacientes obesos.

No entanto, é preciso restringir o uso e fazer um acompanhamento minucioso. "Eles devem ser reservados para aqueles casos que não respondem aos processos normais, que devem começar sempre por mudanças na alimentação, aumento de atividade física. É possível usar o medicamento para controle de apetite se isso não for bem-sucedido", explica Meirelles. De acordo com o presidente da Sbem, os efeitos colaterais devem ser observados pelos médicos antes da emissão da receita: "É claro que, se o paciente já tem um problema cardíaco ou é hipertenso, ele não tem indicação para o uso. Nesses casos é um erro".

O uso de medicamentos para emagrecer não livra os pacientes do efeito sanfona se não houver, como indicado pelo médico Ricardo Meirelles, uma série de mudanças de hábitos. Quando fez acompanhamento com um endocrinologista, a administradora Luciana Arantes conseguiu perder cerca de 20kg em um ano. Mas sem fazer uma reeducação alimentar ou praticar exercícios, os quilos a mais voltaram após a suspensão da sibutramina e da anfepramona. "Não fiz acompanhamento com nutricionista, nem academia, e na época recuperei 10kg. Hoje, todos os quilos perdidos já voltaram, ainda mais depois que tive minha filha", afirma Luciana. Médicos defendem que a sibutramina não causa dependência, mas, atualmente, a administradora sente dificuldade em perder peso sem os medicamentos. "Agora que entrei na academia para tentar emagrecer, sinto que o organismo fica mais preguiçoso para perder gordura, começa a pedir o remédio", diz.

Tarja preta

A Anvisa passou a exigir que, para comprar a sibutramina, fosse apresentada a receita azul, usada para controle especial, no lugar da receita branca, de controle simples. A tarja do medicamento deixou de ser vermelha e passou a ser preta.