O jornalista e acadêmico Michael Pollan é um dos mais ferrenhos críticos da indústria alimentícia e do consumo em larga escala de alimentos industrializados. “O aumento no consumo de açúcar é, por si só, responsável pela epidemia de obesidade e diabetes nos EUA”, disse(external link) em uma entrevista ao jornal “The New York Times” em 2011.

Autor de livros sobre alimentação e da série “Cooked”, da Netflix, Pollan chama atenção para as propagandas da indústria alimentícia que, segundo ele, demonizaram por muitos anos o consumo de gordura enquanto promoviam o consumo de açúcar.

Uma análise recém publicada na revista científica “Jama Internal Medicine” mostra(external link) que a tese do jornalista faz sentido. E que essa propaganda incluiu o financimento de pelo menos uma pesquisa científica encomendada de forma estratégica para tentar abafar os malefícios do açúcar.

Por que o açúcar faz mal

O açúcar refinado - tanto aquele que você compra no mercado, a glicose, quanto aquele proveniente do processamento de frutas, a frutose - pode ser prejudicial para o organismo porque é metabolizado muito rapidamente. O efeito imediato é a geração de energia: se você não sair imediatamente para uma corrida ou gastar o excesso de energia, o corpo armazena o que sobrar como gordura.

Além disso, o excesso de consumo de açúcar causa resistência à insulina, o hormônio responsável por processar a glicose no sangue e transformá-la em energia dentro das células. E o excesso de glicose no sangue é um dos fatores que leva à diabetes.

É preciso lembrar que carboidratos simples - massas, biscoitos e pães feitos de farinha branca, além de arroz branco - são transformados pelo corpo em glicose e têm efeito semelhante. Isso significa que, ao comer uma fatia de bolo de chocolate, não é apenas o açúcar na fatia que vai se transformar em energia (e o excesso, em gordura) no seu organismo, mas também toda a massa, feita de farinha branca. Essa é a equação que coloca a glicose como principal vilã da epidemia de obesidade e diabetes que atinge(external link) o mundo.

O documentário “Fed Up”, que também acusa a indústria de alimentos pela epidemia mundial de obesidade, sugere(external link) que propagandas de alimentos industrializados com alto nível de açúcar e carboidratos sejam controladas como as de cigarro. E que, no futuro, ficaremos tão ultrajados com esse tipo de comercial sendo feito para crianças como ficamos, hoje, quando vemos propagandas dos anos 30 que vendiam cigarros como se fossem algo bom para a saúde.

A análise de documentos internos da indústria

Em setembro de 2016, a análise de documentos internos da indústria de alimentos, do período de 1950 a 2000, mostra(external link) que houve um esforço intencional para esconder os efeitos prejudiciais do açúcar e dar mais destaque aos perigos do consumo de gorduras.

A análise mostra que, em 1967, um grupo formado por empresários da indústria alimentícia - chamado de “Sugar Research Foundation”, isto é, “Fundação da Pesquisa em Açúcar” - financiou um estudo de cientistas de Harvard que, em suas conclusões, negava que o açúcar poderia causar doenças cardíacas.

Além disso, a pesquisa de 1967 financiada pela indústria propôs-se a apontar “erros” em trabalhos anteriores que chamavam a atenção para os malefícios do açúcar. Em suas conclusões, o estudo dos cientistas de Harvard dizia que cortar gordura da dieta era o melhor jeito de evitar doenças do coração. A pesquisa foi publicada no “New England Journal of Medicine” e saiu sem alertas de que havia sido paga pela “Fundação da Pesquisa em Açúcar”.

Para os autores da análise (external link)recém publilcada, a influência da indústria alimentícia, por meio de atitudes como o financiamento daquela pesquisa, foi capaz de, por décadas, desviar o foco do debate sobre açúcar e problemas de saúde, tanto nos EUA quanto no mundo.

Esse não é o primeiro indício de tráfico de influência da indústria de alimentos. Em 2015, o “The New York Times” mostrou(external link) que a Coca-Cola financiou pesquisas de uma ONG, a “Global Energy Balance Network”, que promove a ideia de que os norte-americanos estão “obcecados demais” com quanto comem e bebem, e que é mais eficiente se exercitar do que cortar calorias da dieta para manter um peso saudável.

No entanto, a ciência já sabe (external link)que o papel da alimentação saudável é bem mais importante na manutenção do peso do que a prática de exercícios físicos. Os benefícios associados a prática de atividades físicas são vários, mas considera-se que o mais importante para perder e manter peso seja uma dieta equilibrada.

Como o debate sobre a responsabilidade da gordura e do açúcar na manutenção do peso e na saúde ainda está em voga, as descobertas têm importância no meio médico e científico. Hoje, a ciência acredita que o consumo excessivo dos dois prejudica a saúde.

O que diz a indústria alimentícia

É impossível conferir a história com os cientistas responsáveis pela pesquisa de Harvard em 1967 ou com os executivos que a financiaram, pois nenhum deles está vivo, de acordo com os autores da análise recém publicada. 

Em resposta à análise publicada em 2016, a “Fundação da Pesquisa em Açúcar”, hoje conhecida como “Sugar Association”, ou “Associação do Açúcar” disse que à época, o jornal em que o estudo foi publicado não demandava transparência quanto a origem dos recursos que financiavam pesquisas, mas que “deviam ter sido mais transparentes”.

Além disso, a “Sugar Association” defendeu, em nota oficial ao jornal em que o estudo foi publicado na Jama que décadas de pesquisa financiadas pela indústria concluíram que o açúcar não é o único responsável pelas doenças do coração. 

ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto trazia trechos sobre o processo do consumo de glicose e frutose que poderiam dar margem a interpretações equivocadas. O texto foi alterado às 13h de 15 de setembro de 2016.