Se o compromisso dos profissionais de nutrição é com o direito humano à alimentação e ao desenvolvimento saudável na infância, a nossa entrevistada, Cleia Costa Barbosa, faz questão de destacar que  “os nutricionistas são os profissionais responsáveis pela alimentação adequada em todas as faixas etárias.”  E vai além no compromisso de garantir desenvolvimento saudável na primeira infância. “Nós compreendemos a anatomia e a fisiologia da glândula mamária e da boca do lactante, conhecemos a técnica de amamentação e sabemos como prevenir e tratar problemas que podem complicar o processo de amamentação”, destaca.

Cleia é doutora em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e tem um extenso currículo de adesão, defesa e promoção do aleitamento  materno. Algumas de suas atuações mais recentes, que ilustram uma intervenção ativa na temática: integra a Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar – Rede IBFAN, Tutora e facilitadora da Estratégia Alimenta e Amamenta do Fundo das Nações Unidas pela Infância (UNICEF) em parceria Ministério da Saúde (MS). Participa do Comitê de Aleitamento Materno de Minas Gerais – CIAM – MG, membro da Sociedade Mineira de Apoio a Amamentação – SOMAN e da Rede Nacional de Bancos de Leite Humano. A nutricionista também é Conselheira em Aleitamento Materno do MS e Avaliadora da Iniciativa Hospital Amigo da Criança – MS/ UNICEF.

Adesão à causa

A nutricionista relata que tudo começou na fase de estudante, no ano de 1984,  quando bolsista da disciplina materno infantil. Depois de formada, ela começou a se dedicar ao atendimento de gestantes-nutrizes e seus bebês. De lá para cá, Barbosa firmou sua dedicação aos espaços de discussão sobre a difusão e conscientização sobre a importância da amamentação. Aliada ao trabalho de despertar as gestantes, a nutricionista tem uma ação junto a hospitais com foco de atendimento em crianças, conhecidos Hospitais Amigos da Criança – título dado pela OMS-UNICEF e MS às unidades hospitalares que atendem com prioridade na promoção e garantia da saúde infantil, seguindo os dez passos para o sucesso do aleitamento materno.

Cleia comenta que já percorreu diversas regiões de Minas Gerais, levando a causa do leite materno. Ela descreve as inúmeras avaliações feitas, e que receberam o prêmio de Amigo da Criança. “Estive em Belo Horizonte (Hospital das Clínicas, Hospital Sofia Feldman, Maternidade Odete Valadares e Santa Casa), em Betim (Hospital Público Regional e Maternidade Pública Municipal), em Montes Claros (Hospital Aroldo Torinho), em Barbacena (Santa Casa), em Pará de Minas (Hospital Nossa Senhora da Conceição), em Passos (Santa Casa) e em Rio Casca (Hospital Nossa Senhora da Conceição)”, comenta. Ela faz questão de destacar “ o Hospital Sofia Feldman em Belo Horizonte, que foi o primeiro e continua tendo excelência no aleitamento materno e atendimento neonatal”.  Junto destes, cita “sempre auxiliei a Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto”.

Cleia é movida a compromissos com a cultura do aleitamento materno. Após capacitação oferecida pelo Ministério da Saúde (MS) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), ela assumiu o desenvolvimento de ações para a mulher trabalhadora, com foco nos cuidados das gestantes, da gestação e da saúde da mulher . “Todo este trabalho é de promoção da qualidade de vida futura”, destaca. Para ela “com as gestantes trabalhadoras, vamos agir no agora podendo mudar diversas realidades.” “Isto é estimulante, nos dá satisfação profissional e pessoal imediata”, comemora. 

Ações pelo aleitamento materno

A história do movimento de incentivo ao leite materno em Minas Gerais começa com a criação da coordenação materno-infantil, que implantava, no ano de 1988, ações do Programa Nacional de Incentivo ao Aleitamento Materno no estado. Cleia explica que “esse movimento faz parte da promoção das políticas púbicas da saúde do MS, a serem desenvolvidas, como compromisso, pelo estado e pelos municípios”.

Do grupo que forma o movimento, profissionais de várias instituições se juntam para apoiar, promover e proteger o aleitamento materno. A nutricionista conta que “sendo parte do Programa Viva a Vida, desde então, o Comitê Interinstitucional de Aleitamento Materno se reúne periodicamente”.  Ela cita que o grupo tem incentivado e mobilizado para a conscientização da importância da amamentação em atividades nos mais diversos municípios e regiões, que acontecem no mês de agosto e em todo o ano.

Em relação às intervenções mais diretas,  ela defende que o nutricionista tem condições de implantar ações práticas e efetivas, e contribuir em ações de incentivo ao aleitamento materno. Cleia cita as inúmeras possibilidades; 1) Nos Núcleos de Saúde da Família (NASF); implantar ações práticas e efetivas, que contribuam com o incentivo ao aleitamento materno. 2) Nas creches e escolas; criando condições para as mães amamentarem. 3) Nas feiras de ciências e culturais; 4) Nas escolas com as crianças aprendendo desde cedo, de forma lúdica, sobre a importância do aleitamento; 5) Nos consultórios; atendendo a mulher em todos os seus momentos e no manejo do leite materno e 6) Nas empresas e instituições: apoiando e implantando a sala de apoio à mulher trabalhadora, oferecendo cursos a gestantes/nutrizes”, lista a nutricionista. A ação deve ser permanente e contínua. Para ela, não deve ser uma atividade só na Semana de Aleitamento Materno ou no Agosto Dourado. “Devemos promover a importância do leite materno o ano inteiro”, defende.

A importância do leite materno

Falando de defesa de alimentação saudável na infância, a nutricionista destaca que “o leite materno é o primeiro alimento do bebê, é completo e seguro, na temperatura e quantidade adequada, sendo o primeiro passo para a promoção da qualidade de vida, além de proteger a mãe de doenças como câncer de mama e de colo de útero, obesidade entre outras”. E acrescenta “o aleitamento materno também ajuda a espaçar as gestações.”

Diante da importância da alimentação dos bebês e da gestante, ela destaca o papel do nutricionista “somos responsáveis direto por essas ações, regulamentadas na Lei.” Ela cita “devemos praticar o que regulamenta nossa profissão, ou seja, atentar para o cumprimento do passo Dez Passos para o Sucesso da Amamentação OMS e UNICEF (veja abaixo), referente ao sucesso do aleitamento materno.”

Cleia considera fundamental a atitude do nutricionista. Para ela, o profissional pode e deve, além de contribuir com a melhora e humanização do atendimento: “ocupar e assumir espaços, após treinamentos específicos, que garanta a possibilidade de coordenar: Bancos de Leite Humano (BLH), Sistema de Vigilância Alimentar (SISVAN), Estratégia Nacional de Promoção da Alimentação Complementar Saudável – ENPACS “, destaca.

No que se refere à agenda dos municípios, ela é enfática “é preciso boa vontade das administrações públicas, mas é necessário o envolvimento efetivo do profissional de nutrição”.  “Em relação aos gestores hospitalares, ela chama a atenção de que “a promoção do aleitamento materno não dá prejuízo e sim lucro”. E propõe, “ os proprietários e gestores de hospitais podem fazer o curso de capacitação, para melhor se inteirar e agir”.

Para a nutricionista e defensora do aleitamento materno Cleia Barbosa “é preciso envolver o maior número de pessoas com vontade de mudar as práticas atuais de forma eficaz, e assim criar condições reais de mudanças”.  No caso dos nutricionistas, por ser profissionais da educação alimentar, ela convoca, para uma ação pública, afirmando  “o leite materno é o alimento completo, que contribui para a qualidade e promoção de vida – precisamos ocupar nossos espaços com eficiência e eficácia”.

Dez passos para o sucesso da amamentação, segundo recomendações da OMS/UNICEF: 

Ter uma norma escrita sobre aleitamento materno, a qual deve ser rotineiramente transmitida a toda a equipe de cuidados de saúde.
Treinar toda a equipe de cuidados de saúde, capacitando-a para implementar esta norma.
Informar todas as grávidas atendidas sobre as vantagens e a prática da amamentação.
Ajudar as mães a iniciar a amamentação na primeira meia hora após o parto.
Mostrar às mães como amamentar e como manter a lactação, mesmo que tenham de ser separadas de seus filhos.
Não dar ao recém-nascido nenhum outro alimento ou bebida além do leite materno, a não ser que seja por indicação médica e/ou do nutricionista.
Praticar o alojamento conjunto – permitir que mães e os bebés permaneçam juntos 24 horas por dia.
Encorajar a amamentação sob livre demanda (sempre que o bebê quiser).
Não dar bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas.
Encorajar a criação de grupos de apoio à amamentação, para onde as mães devem ser encaminhadas por ocasião da alta hospitalar.

Fonte: Unicef(external link)