Ali pelas duas da tarde, Élcio pegou o microfone e, como “quebra-gelo”, anunciou: “Que tal agora uma sopa!” Estava eu de barriga cheia, acabara de bater um belo prato e já estava com aquele soninho de depois do almoço.

“Trago pra vocês agora uma sopinha de letras”, ele falou, arrancando risos da plateia. No telão aparecia um cardápio de siglas: era Sesan, Caisan, Sisan - esta última, inclusive, vinha a ser o centro das discussões do evento.  

“Para início de conversa, vou apresentá-las”, ele brincou, explicando o significado de cada uma. Embora esses eventos sejam para um público específico, que já lida com o tema, sempre há algum iniciante.

Logo lembrei de um evento de 2015, em um estado que passara por trocas de governos e tinha desativado o conselho, mas que agora buscava se estruturar de novo, chamando a sociedade civil, realizando conferências.

A conferência já estava chegando nos seus “finalmentes”, quando um rapaz levantou a mão e pediu questão de ordem. Olhos e ouvidos nele, que disse: “Vocês estão falando SAN, SAN, SAN... Que diabo é SAN?”

Todo mundo riu, mas de uma forma compreensiva, pois vimos que o moço participava de uma conferência pela primeira vez, não conhecia o assunto, todos ali acabaram entendendo. Fez-se então uma parada para uma breve explicação ao conferencista de primeira viagem. E a ele também foi indicada a participação em encontros de capacitação e treinamento, bem como a leitura de publicações etc e tal.

Élcio não estava naquela conferência, mas agora explicava o que é SAN (segurança alimentar e nutricional), que vem no final de siglas como Losan (Lei Orgânica de), Caisan (Câmara Interministerial de) e Sisan (Sistema Nacional de).

Aliás, o encontro era justamente sobre ele, o Sisan.

Na volta a Brasília, pesquisei no Google, não o significado das siglas, pois as conheço letra a letra, mas só para saber de onde vem a “sopinha de letras” ou a “sopa de letrinhas”, que foi relembrada por Élcio.

Sim, lembro da sopa que fez parte da nossa infância. Era batata: de feijão ou frango ou legumes, o macarrão vinha todo bonitinho em forma de letras. Era para nós, desde cedo, engolirmos o alfabeto, não há dúvida disso.

Agora, dúvida mesmo eu tenho é sobre o inventor dessa expressão. O mais próximo que cheguei foi em uma frase de Philip Roth, para quem “o gênio mais invejável na história da literatura foi o sujeito que inventou a sopa de letrinhas”.

Sobre quem seria esse invejado gênio inventivo, o romancista americano, que é um dos mais aclamados autores da atualidade, tratou logo de responder: “Ninguém sabe quem é”.

Marcelo Torres é jornalista no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea)