Está mais fácil comprar bebidas açucaradas, como refrigerantes, porque elas estão cada vez mais baratas e comprometem uma porcentagem cada vez menor do orçamento de indivíduos e famílias. A tendência é global, mas é ainda mais acentuada nos países pobres e em desenvolvimento.

As conclusões desastrosas são de um estudo publicado em maio deste ano pela entidade americana Center for Disease Control and Prevention (CDC)(external link). Os dados reforçam uma discussão que precisa avançar rapidamente: se os países não implementarem com urgência uma política deliberada de aumento de preços(external link) para este tipo de produto, será cada vez mais difícil conter a epidemia de sobrepeso e obesidade que se espalha por todo o mundo.

Para o estudo, foram analisados dados de 82 países entre 1990 a 2016, sendo 40 países de alta renda (como Estados Unidos e França) e 42 de média e baixa renda (como Brasil e Colômbia). A partir daí os pesquisadores cruzaram informações sobre o preço real das bebidas açucaradas e o preço em relação à renda per capita dos indivíduos.

Ao combinar os dois fatores – preço real e relativo à renda – concluiu-se que as bebidas açucaradas se tornaram financeiramente mais acessíveis em 79 dos 82 países analisados, o que representa 96% do total. Isso significa que em praticamente todo o mundo ficou muito mais fácil consumir refrigerantes, sucos industrializados e outros produtos com alto teor de açúcar nos últimos 26 anos.

A situação é ainda mais alarmante em países de média e baixa renda. Em 76% deles foi registrada uma queda no preço real das bebidas açucaradas, inclusive no Brasil. Somando-se a isso o aumento geral dos salários decorrente do avanço econômico das últimas décadas, o resultado é assustador. No Brasil, dados oficiais do Ministério da Saúde (external link)mostram que 16,5% da população consome refrigerante em cinco ou mais dias da semana. Entre os adultos de 18 a 24 anos, esse índice chega a 24%. A mesma fonte indica que mais da metade dos brasileiros já enfrenta o sobrepeso e 19% estão obesos.

A pesquisa do CDC reforça a necessidade de uma intervenção urgente na acessibilidade das bebidas açucaradas. Dados recentes mostram que o aumento de impostos sobre refrigerantes e afins impactam na escolha do consumidor: no México(external link), que desde 2014 adota política de taxação de bebidas açucaradas, estudos preliminares indicam uma queda no consumo deste tipo de produto e um aumento no consumo de bebidas saudáveis, como a água.

Em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez um apelo global(external link) pela taxação em 20% das bebidas açucaradas. “O consumo de açúcares livres, incluindo produtos como as bebidas açucaradas, é um fator primordial no aumento global dos índices de obesidade e diabetes. Se os governos taxarem produtos como as bebidas açucaradas, eles podem reduzir esses índices e salvar vidas”, diz a Organização. 


  1. Entre 1990 e 2016 houve uma queda no preço real das bebidas açucaradas e um aumento na renda dos indivíduos, o que fez com que refrigerantes e similares se tornassem financeiramente mais acessíveis em praticamente todo o mundo.
  2. Quanto mais acessível, maior tende a ser o consumo. Levando em consideração que as bebidas açucaradas contribuem para o aumento dos índices de sobrepeso e obesidade, o aumento no consumo é alarmante.
  3. Os responsáveis pelas políticas públicas precisam adotar medidas para elevar o preço real das bebidas açucaradas para reduzir o consumo.

Leia o estudo completo (em inglês):
Global Trends in the Affordability of Sugar-Sweetened Beverages, 1990–2016(external link)