Um segmento econômico deve acender o sinal amarelo para o risco de sofrer regulação quando alguns fatores se encontram: instituições relevantes defendem a adoção de regras, há uma considerável atenção midiática ao tema e a sociedade está preocupada. O sinal vermelho pisca quando a regulação está consolidada em outros países, há uma intensa pressão pública e os principais atores daquele setor estão cobrando medidas.

É, a chapa esquentou para os fabricantes de alimentos ultraprocessados na América Latina. Como mostramos em O joio e o trigo, alguns países estão à frente de uma agenda política inédita que tenta colocar freio à epidemia de obesidade. Ninguém prega os olhos. O bagulho ficou louco.

A seguir, algumas evidências de como a indústria está articulada para fazer abortar as iniciativas que ainda não vieram ao mundo. E quais as contradições nesse discurso.

Cerca o frango

“Gostei muito da apresentação do colega do Uruguai, mas a população brasileira é bem diferente”, enfatizou Mariângela Almeida, da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Isolar para derrotar é uma primeira medida da indústria. No Brasil, por enquanto a Anvisa tem aceito a ideia de que as evidências científicas acumuladas em outros países não podem ser transpostas ao cenário local.

A República Unida da Obesidade

Desde a 2ª Guerra Mundial, essas empresas não pouparam esforços para derrubar fronteiras nacionais e criar produtos que pudessem ser vendidos do extremo mais pobre da África ao vilarejo mais rico da Europa.

Para essa função foi criado o Codex Alimentarius, um organismo conjunto da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da FAO que “harmoniza” a legislação dos países para que os produtos possam circular com facilidade. 

“Um estudo mostrou que mais de 400 dos participantes não governamentais nos comitês do Codex representam a indústria, enquanto apenas 1% representavam organizações de interesse público”, narra o livro Lethal but legal. “Companhias como Nestlé, Hershey, Kraft, General Foods, Coca-Cola e Pepsico, além de grupos como a Associação dos Fabricantes de Alimentos dos EUA e a Associação Nacional dos Processadores de Alimentos, frequentemente têm mais pessoas nessas reuniões que os governos de países pequenos. Em resumo, a indústria e suas entidades de classe são comumente os juízes, os jurados e os especialistas na formulação de decisões sobre acordos comerciais, deixando pouco espaço a considerações sobre saúde.”

Insaciáveis

Também não foram poucos os esforços da indústria por criar alimentos hiperpalatáveis que piram o cabeção de gregos e mexicanos, driblando os mecanismos de saciedade de nosso cérebro. 

“As próprias empresas de alimentos estão viciadas em sal, açúcar e gordura. A incansável determinação de gerar a maior atratividade pelo menor custo possível as leva, de modo inexorável, a esses três ingredientes”, ele explica.

Que baixem as fronteiras

Se nada disso funcionar, esqueçam tudo o que falamos sobre as especificidades nacionais. É hora de derrubar as fronteiras e irmanar nossos povos. Sim, o Mercosul serve para essas horas de aperto. Frente à iminência da adoção dos sinais de alerta nos rótulos no Uruguai e ao cenário indefinido no Brasil, a indústria trabalha para levar a discussão para o âmbito do bloco regional.

A enorme quantidade de interesses conflitantes e a falta de acordo dentro dos próprios governos nacionais farão qualquer decisão subir no telhado. 

Amigo é coisa pra se guardar 

Nessa hora vale acionar os amigos nos governos. As equipes econômicas e de agronegócio são sempre a porta de entrada na tentativa de frear qualquer iniciativa regulatória. Muitos países da região dependem fortemente desses segmentos e não estão dispostos a pelejas. 

Deixa que eu chuto

“Vamos taxar quem não faz exercício? Vamos taxar quem come mais de duas mil calorias por dia? Vamos taxar o sujeito que tem estresse no trabalho?”, questionou Alexandre Kruel Jobim, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas (Abir).

É uma fala interessante porque condensa alguns argumentos. Primeiro, de que a obesidade é causada por vários fatores – e, claro, os ultraprocessados estão longe de ser o fator central, de acordo com as empresas. Segundo, que o indivíduo é o grande culpado porque faz escolhas erradas. Terceiro, que nenhuma medida isolada resolve o caso.

De fato, tanto não resolve que, além da taxação, são propostos restrições à publicidade e à venda para crianças, sinais de advertência frontais nos rótulos e estímulos à venda de alimentosin natura, entre outras possibilidades. E, ainda que não fosse assim, por algum ponto é preciso começar.

Mal educados

Sim! É preciso começar – e terminar – pela educação alimentar. Em 100% das falas de representantes das empresas e de acadêmicos mais simpáticos a elas, essa é a panaceia. As pessoas estão gordas porque não sabem comer. 

Mas, calma, quem foi mesmo que disse que era impossível comer um só? E que Danoninho vale por um bifinho? 

Essas empresas não promoveram até agora nenhuma ação relevante de educação alimentar, mesmo com o farto investimento publicitário na televisão.

A diferença entre farinha de trigo e Fandangos

Não importa quanta evidência científica exista indicando determinado caminho, ela nunca é suficiente. Ou conclusiva. Para garantir o êxito desse argumento, o setor privado se esmera em financiar a produção de pesquisas científicas que caminhem no sentido contrário à regulação, confundindo a sociedade e os formuladores de políticas públicas. 

No mundo todo, dois tipos de organização têm sido acionados para defender as empresas.

– as sociedades acadêmicas nacionais de alimentação e nutrição, há longo tempo prestadoras de serviços

– as organizações de tecnologia de alimentos

Olé

Em pelo menos dois países, Brasil e Peru, as empresas jogam com o regulamento debaixo do braço, num drible digno dos grandes mestres. Não deu pelo Executivo, vai pelo Legislativo.

É treta

Se nada disso funcionar, sempre teremos a violência. Duas extensas e bem documentadas reportagens do The New York Times relatam ameaças e espionagem contra agentes públicos, pesquisadores e integrantes de ONGs envolvidas no debate regulatório no México e na Colômbia.

 

Veja a reportagem completa em: http://outraspalavras.net/ojoioeotrigo/2017/12/alimentos-o-manual-da-industria-para-frear-regulacao-na-america-latina/