Paula Johns é diretora presidente da Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) Promoção da Saúde. É mestre em estudos de desenvolvimento internacional pela Universidade de Roskilde, Dinamarca. Acompanha as reuniões de negociação da Convenção-Quadro e de seus protocolos desde 2000. Atua no terceiro setor desde 1998 coordenando projetos voltados à promoção dos direitos humanos, equidade de gênero, preservação do meio ambiente e saúde pública. Ex-presidente do conselho diretor da Framework Convention Alliance (FCA), empreendedora social Ashoka, Conselheira Nacional de Saúde. Membro do Conselhor do GAPA – Global Alcohol Policy Alliance, da Fundação Interamericana do Coração e da NCD Alliance. Compõe ainda o Comitê gestor da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. 

Em entrevista ao Parágrafo 2 Paula Johns fala sobre a recente decisão do Supremo Tribunal Federal em favor da proibição de aditivos de sabor e aroma em cigarros. A diretora da ACT Promoção da Saúde também destaca a relação entre mercado e Congresso Nacional nas decisões relativas a controle de tabaco, alimentos ultraprocessados e produtos com alto teor de açúcar. Paula também revela ainda quais são os grandes desafios do Brasil na promoção de políticas públicas voltadas a alimentação saudável. Confira.

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Parágrafo 2: Há alguns anos a ACT se engajou também na luta por uma alimentação mais saudável e por medidas de controle e advertência para produtos industrializados, a exemplo do que aconteceu com os cigarros. Quais são os principais focos e as principais ações exercidas pela ACT nesse nicho?

Paula Johns: As políticas públicas que podem ser adotadas para promover uma alimentação mais adequada e saudável são muito similares às adotadas para redução do tabagismo. Podemos traçar um paralelo entre os produtos comestíveis ultraprocessados (desnecessários, nocivos à saúde e supérfluos) e os cigarros.

De acordo com a Guia Alimentar para População Brasileira, para garantir uma alimentação adequada e saudável é importante termos uma alimentação baseada em produtos in natura e minimamente processados, diversificada, que leve em consideração aspectos culturais e ambientais e evitar os ultraprocessados (refrigerantes, bolachas recheadas, embutidos que tem excesso de nutrientes críticos, corantes e aditivos). Estes são produtos comestíveis que imitam comida e que causam uma série de danos à saúde. Nosso slogan é que ambientes saudáveis promovem escolhas saudáveis, e para tal necessitamos de uma rotulagem adequada, medidas fiscais que encareçam os ultraprocessados e facilitem o acesso à comida de verdade e restringir o marketing e a publicidade de produtos que fazem mal à saúde. Assim como fazemos com o tabaco, atuamos junto com uma rede de organizações das mais diversas áreas de atuação que tem como objetivo comum garantir o direito humano à Alimentação Adequada e Saudável, através de uma Aliança com o mesmo nome (www.alimentacaosaudavel.org.br (external link)).

No momento estamos apoiando uma campanha de melhoria da rotulagem nutricional que está em discussão na Anvisa. A Aliança e outros parceiros apoiam a proposta apresentada pelo Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFRP). Outros temas que estão na agenda são expor as distorções no atual modelo de tributação de bebidas adoçadas, a melhoria da qualidade da alimentação em escolas e outros ambientes institucionais e a restrição do marketing de produtos nocivos à saúde.

Em outras palavras, não só podemos continuar a comer, como podemos redescobrir o prazer de comer alimentos saudáveis, de valorizar o comer junto com outras pessoas, de criar preparações culinárias extremamente saborosas.

Parágrafo 2: No final de 2017, pesquisadores da Universidade da Califórnia trouxeram à tona documentos que comprovam que a  Sugar Research Foundation (SRF), conhecida agora como Sugar Association, financiou em 1965 uma revisão no New England Journal of Medicine na qual eram descartados indícios que relacionavam o consumo de açúcar, aos aumento dos níveis de gordura no sangue e doenças cardíacas. Os documentos também revelam que a empresa encomendou outras pesquisas que comprovavam os malefícios do açúcar e quando a SRF conheceu os dados, que indicavam uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças cardíacas, e até um maior risco de câncer de bexiga, interrompeu as pesquisas e nunca publicou seus resultados. Como atua a indústria do açúcar no Brasil em relação a estudos que tentam (ou que já tenham comprovado) os malefícios que esse alimento causam os podem causar?

Paula Johns: As táticas da indústria do tabaco e das indústrias de produtos comestíveis ultraprocessados são assustadoramente parecidas. Portanto, uma das áreas importantes de atuação é o monitoramento das táticas de interferência promovida por estas grandes corporações para evitar medidas regulatórias que possam diminuir a venda de seus produtos. Algumas das estratégias podem ser encontradas no trabalho de jornalismo investigativo O Joio e o Trigo dos jornalistas Moriti Neto e João Peres (www.ojoioeotrigo.com.br(external link))

Parágrafo 2: A batalha pelo aumento nos impostos sobre produtos como refrigerantes e sucos industrializados, comprovadamente possuidores de altos teores de açúcar, é uma tarefa que demanda muita coragem e persistência, já que instituições, ongs e órgãos do poder público enfrentam gigantes como Coca Cola e Danone, por exemplo. Essa luta, a seu ver, é ainda maior do que a travada para aumentar os impostos sobre os cigarros?

Paula Johns: Numa primeira leitura, o enfrentamento na área da alimentação e nutrição parece muito maior e mais complexo do que o enfrentamento com a indústria do tabaco, por outro lado a possibilidade de mobilização da sociedade em torno do tema alimentação é muito maior, uma vez que é um tema que diz respeito a todos nós. No caso do cigarro era uma agenda via de regra negativa, no sentido de não consumir sem exatamente termos um substituto. No caso dos ultraprocessados, temos a vantagem de poder promover o lado bom do prazer de comer.

Em outras palavras, não só podemos continuar a comer, como podemos redescobrir o prazer de comer alimentos saudáveis, de valorizar o comer junto com outras pessoas, de criar preparações culinárias extremamente saborosas.

Parágrafo 2:  Grandes indústrias como as fumageiras e fabricantes de alimentos e bebidas sempre investiram alto no financiamento de campanhas eleitorais de candidatos a deputado, senador e a presidente da República. Tais financiamentos sempre foram “moeda de troca” corrente no Congresso Nacional e representavam, muitas vezes, o engavetamento ou a aprovação de projetos de lei que favoreciam estas empresas de alguma maneira. Entretanto, para a campanha eleitoral de 2018, estão proibidas as doações feitas por pessoas jurídicas. Como você acredita que as grandes empresas agirão para continuar influenciando nas decisões do Congresso Nacional?

Paula Johns: Continuarão fazendo forte incidência no Congresso Nacional e nos Poderes Executivo e Judiciário para evitar toda e qualquer medida regulatória que possa reduzir a venda dos seus produtos. A incidência e influência também se dá através da mídia e do financiamento de think tanks, buscando formar opinião e vendendo a falsa ideia de que é tudo uma questão de moderação, que regular o mercado é um ataque à liberdade de escolha individual, etc.. etc… Nesse aspecto também a prática da indústria de ultraprocessados e do tabaco é absolutamente idêntica.